martes, 29 de abril de 2008


Inocência

Havia um menino cantando no quintal,

Imaginando ser o dono do mundo,

Que o universo fosse do tamanha da sua rua,

Que quase podia voar.


Tinha os pés no chão,

Mão sujas de barro,

Coração em chamas,

Olhos brilhantes.


Era do tamanho da lua,

Da cor do amanhecer,

A sua voz um canto de pássaro,

Sua pele era da cor do céu.


Um dia o menino pulou o quintal do vizinho,

Quase tomou tiro de espingarda de sal,

Na tentativa de roubar goiaba,

Sentiu uma dor que jurava ser real.


Um dia percebeu que o quintal do vizinho era mais verde,

Sentiu dor nos pés ao ser mordido por uma formiga,

Ralou o joelho tentando jogar bola,

Chorou quando estava de noite.


E a voz da mamãe lhe chamava:

- Lucas, vem tomar banho.

-Já vou mãe, retrucava ele.

E se demorava em ir.


Mas um dia ficou triste,

Quando a rua ficou pequena,

Quando os muros ficaram baixos

Quando chovia e não tinha brincadeiras,

Quando a espingarda não era mais de sal,

Quando a goiaba estava estragada,

Quando percebeu que não podia voar,

Quando percebeu que não cantava tão bem assim,

Quando aquela voz que lhe insistia em chamar, calou-se.

Quando dormiu pensando que tudo era um pesadelo.

Quando dormindo como um deus, amanheceu mortal.

E percebeu que estava nu, como Adão.

Quando percebeu que o paraíso sumiu.

E que ele teria de reinventar sua história.

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